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Inventário extrajudicial: quando é possível?

Publicado por Nutef · revisado em Como produzimos este conteúdo

Quando uma pessoa falece deixando bens, a transferência do patrimônio aos herdeiros depende do inventário. Esse procedimento pode tramitar na Justiça, mas, em muitas situações, a lei autoriza que ele seja feito diretamente em cartório, por escritura pública — é o chamado inventário extrajudicial, que costuma envolver menos etapas do que o processo judicial.

Nem todo caso, porém, admite essa via. A legislação estabelece requisitos, e normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ampliaram as hipóteses nos últimos anos — e, em abril de 2026, o Plenário do CNJ decidiu que a certidão negativa de débitos fiscais não pode ser exigida como condição para o inventário em cartório. Este texto explica, em linguagem simples, quando o inventário em cartório é possível e o que observar antes de definir o caminho.

O que a lei diz sobre o inventário em cartório

A possibilidade de fazer inventário e partilha por escritura pública foi introduzida pela Lei nº 11.441/2007, que alterou a legislação processual da época para permitir inventário, partilha, separação e divórcio consensuais pela via administrativa. Hoje, a regra central está no art. 610 do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015).

Pelo texto do artigo, havendo testamento ou interessado incapaz, o inventário segue, em regra, pela via judicial. Já o § 1º prevê que, se todos os herdeiros forem capazes e estiverem de acordo, o inventário e a partilha podem ser feitos por escritura pública — documento que vale para atos de registro, como a transferência de imóveis, e para o levantamento de valores depositados em bancos. O § 2º exige que todas as partes estejam assistidas por advogado ou por defensor público, cuja assinatura consta da escritura.

Requisitos em resumo

Na prática, o inventário extrajudicial depende de algumas condições básicas:

  • Consenso: todos os herdeiros precisam concordar com a divisão dos bens.
  • Capacidade: em regra, todos devem ser maiores e capazes — há exceção regulamentada pelo CNJ, explicada adiante.
  • Advogado: a participação de advogado ou defensor público é obrigatória para a lavratura da escritura.
  • Escolha do cartório: a Resolução CNJ nº 35/2007 permite escolher livremente o tabelionato de notas, em qualquer cidade.

Testamento e herdeiros menores: o que mudou

Durante anos, a existência de testamento ou de herdeiro menor levava o inventário obrigatoriamente à Justiça. A Resolução CNJ nº 571/2024, que alterou a Resolução nº 35/2007, flexibilizou esse cenário em duas frentes:

  • Testamento: a escritura passou a ser admitida mesmo havendo testamento, desde que todos os interessados estejam de acordo e sejam capazes (ou, havendo menor ou incapaz, sejam cumpridos os requisitos próprios dessa hipótese), todos estejam representados por advogado e exista autorização expressa do juízo responsável, dada por decisão definitiva no processo judicial de abertura e cumprimento do testamento. Se o testamento contiver reconhecimento de filho ou outra declaração irrevogável, o inventário deve seguir pela via judicial.
  • Menores e incapazes: a resolução incluiu o art. 12-A na Resolução nº 35/2007, admitindo o inventário em cartório com herdeiro menor ou incapaz, desde que ele receba sua parte em fração ideal de cada um dos bens inventariados e haja manifestação favorável do Ministério Público; nessa via, não se admitem atos de disposição dos bens do menor ou incapaz e, se houver impugnação do Ministério Público ou de terceiro interessado, o caso é remetido ao juízo competente.

Certidões negativas de débitos: o que o CNJ decidiu em 2026

A certidão negativa de débitos fiscais em nome da pessoa falecida consta da lista de documentos da escritura de inventário prevista na Resolução CNJ nº 35/2007 (art. 22, alínea “g”) — e chegou a ser cobrada como condição para a lavratura por código de normas de corregedoria estadual, como o da Paraíba, cuja regra deu origem à consulta examinada pelo Conselho. Em 28 de abril de 2026, ao responder à Consulta nº 0008053-23.2025.2.00.0000, formulada pela Arpen-PB e relatada pela conselheira Jaceguara Dantas, o Plenário do CNJ decidiu, por unanimidade, que essa exigência é ilegal: condicionar o ato notarial à quitação de tributos configura sanção política tributária, ou seja, cobrança indireta, vedada pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do próprio CNJ.

A mesma resposta delimitou o que cabe ao tabelião. Ele deve solicitar as certidões fiscais relativas à pessoa falecida, mas apenas para fins informativos, consignando na escritura a situação fiscal do espólio. Se a certidão vier positiva, o ato pode ser praticado assim mesmo, registrando-se no documento a apresentação das certidões e a opção consciente das partes de prosseguir. Segundo a decisão, a responsabilidade do tabelião fica restrita ao dever de orientar sobre os débitos existentes e seus riscos, sem se estender à garantia de pagamento do débito fiscal.

Duas ressalvas importam para não gerar mal-entendido. A decisão não apaga dívidas: o Fisco continua com meios próprios de cobrança, como a habilitação do crédito nos autos do inventário judicial e a execução fiscal contra o espólio ou os herdeiros após a partilha, com base na Lei nº 6.830/1980 — caminhos citados no próprio julgado. E ela não dispensa os tributos que incidem sobre a transmissão em si: o art. 15 da Resolução CNJ nº 35/2007 continua determinando que o recolhimento dos tributos incidentes anteceda a lavratura da escritura, o que alcança o imposto estadual sobre heranças (ITCMD).

Sobre a validade no tempo: essa resposta à consulta foi firmada em 28 de abril de 2026, não tem prazo de validade nem entrada em vigor marcada para data futura, e até agosto de 2026 não havia norma posterior em sentido diverso. O texto da Resolução CNJ nº 35/2007 também não foi alterado depois do julgamento — a última alteração registrada continua sendo a Resolução CNJ nº 571/2024 —, de modo que a alínea “g” do art. 22 segue listando a “certidão negativa de tributos” entre os documentos da lavratura; depois da decisão, esse item passa a ser lido como documento informativo, e não como condição para o ato. Onde normas locais ainda trouxerem a exigência, o entendimento fixado pelo CNJ é o de que ela não pode obstar a escritura.

Documentos que ajudam a organizar

Como a aplicação dessas regras pode ser detalhada por normas locais das corregedorias — que, no entanto, não podem contrariar as diretrizes do CNJ —, vale confirmar como o tema é tratado no estado onde a escritura será lavrada. Em qualquer cenário, reunir a documentação com antecedência costuma reduzir idas e vindas ao cartório. Entre os itens geralmente solicitados estão:

  • Certidão de óbito e documentos pessoais da pessoa falecida;
  • Documentos pessoais dos herdeiros e do cônjuge ou companheiro;
  • Certidão de casamento ou prova da união estável;
  • Documentos dos bens: matrículas de imóveis, documentos de veículos, extratos bancários e de investimentos;
  • Certidões fiscais em nome da pessoa falecida — solicitadas pelo tabelião para fins informativos; desde a decisão do CNJ de 28 de abril de 2026, a ausência de certidão negativa não impede a lavratura da escritura, como explicado na seção anterior;
  • Comprovantes do recolhimento dos tributos incidentes sobre a transmissão, que deve anteceder a lavratura;
  • Testamento, se existir, e relação de eventuais dívidas deixadas.

Prazos e custos: o que considerar

O art. 611 do CPC prevê que o processo de inventário e partilha deve ser instaurado em até 2 meses contados da abertura da sucessão, que corresponde à data do falecimento, e ultimado nos 12 meses seguintes, prazos que o juiz pode prorrogar. Esse dispositivo trata do processo judicial. Para a via em cartório, o art. 31 da Resolução CNJ nº 35/2007 dispõe que a escritura de inventário e partilha pode ser lavrada a qualquer tempo, cabendo ao tabelião fiscalizar o recolhimento de eventual multa prevista na legislação tributária estadual ou distrital. Ou seja: se existe multa por demora e qual o percentual são questões definidas pela lei do estado, não por norma nacional.

Quanto aos custos, três itens principais entram na conta: o ITCMD, imposto estadual sobre heranças cuja alíquota e regras variam conforme o estado; os emolumentos do cartório, definidos em tabelas estaduais e geralmente proporcionais ao patrimônio; e os honorários do advogado, ajustados livremente entre as partes. Por isso não existe um valor único — o total depende do estado e do conjunto de bens envolvidos.

Quando procurar um advogado

No inventário extrajudicial, o advogado não é opcional: a lei exige sua participação para que a escritura seja lavrada. Além disso, cada família tem particularidades — dívidas da pessoa falecida, bens em mais de um estado, testamento, herdeiros em situações específicas — que podem alterar a via adequada.

Organizar previamente documentos, a lista de bens e as informações sobre os herdeiros ajuda a aproveitar melhor a conversa com o profissional. A avaliação do caso concreto, porém, cabe sempre a um advogado: é ele quem verifica se os requisitos legais estão preenchidos e orienta sobre o caminho apropriado para a situação da família.

Base legal citada

Conteúdo informativo, atualizado em agosto de 2026. A aplicação ao caso concreto deve ser avaliada por advogado.

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